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quarta-feira, 29 de março de 2017

Café



Passaram muitos dias desde que te toquei, pela última vez.

Dormias, calma. Alguns fios do teu cabelo descansavam na tua face. Afastei-os sem que te acordasse, e deixei-me estar ao teu lado. Só a observar o teu sono, enquanto a luz começava a esgueirar-se pelo quarto adentro.

Parece que foi esta manhã que te vi. Mas muitos anoiteceres e amanheceres depois, apenas me resta a imaginação de te ver deitada, despida, em paz.
Mantive a cama desfeita, agarrado a uma imagem que não regressa e que de real já nada tem.

Visto preto e mantenho os pés descalços enquanto deambulo pela minha casa, que agora é apenas minha e plenamente minha. Caminho até ao quarto dezenas de vezes por dia à espera que os meus olhos já não te vejam deitada, despida, em paz.

É a mesma luz que entra a repousar sobre os mesmos lençóis. É a mesma roupa que está na cama, que cheira a ti, que acaricio com as minhas mãos. Tudo está igual àquela manhã que aqui passaste.

Ouço a cafeteira chamar-me, da cozinha. Um assobio que me desperta do meu passeio pela rua da memória. Está um dia perfeito fora destas minhas quatro paredes. Tal como tu gostas. Entre o sentir-te a falta e a necessidade de me esquecer de ti, bebo um café tão amargo quanto a minha alma e deixo que o meu olhar se deixe cair no horizonte da cidade que vai acordando para o seu habitual reboliço descompassado.

Passaram muitos dias, de facto, desde que pela última vez te senti na ponta dos meus dedos.
Amanhã será outro dia a acrescentar ao número abstracto de dias que te relembram e que me empurram para o esquecimento de que um dia foi o último dia que a tua pele perfumou a minha cama.










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